A virtualização das relações sociais
A internet, e por consequente as redes sociais, mudaram a sociedade de forma profunda. Esta nova sociedade que Castells (1999) denominou de “Sociedade em rede” surgiu com o desenvolvimento das novas tecnologias, as quais fizeram com que o mundo fosse mais rápido, próximo e conectado, influenciando, também, a cultura. É o que Levy (2000) refere como cibercultura. À medida que a internet evolui, altera-se cada vez mais a sociedade. Conceitos como virtualidade, transparência, autenticidade, fake news, deepfakes surgiram e remetem para uma nova realidade. Uma realidade tão envolvida em virtualidade que se confunde com ela, tal como anunciado por Baudrillard quando afirmava que a sociedade tinha deixado de existir e que vivíamos numa representação da realidade difundida pelos média, o tal simulacro.
1. Como nos comportamos no mundo virtual?
Antes de mais, convém definir a palavra “virtual”. De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa da Infopédia, entre muitos significados, virtual refere-se ao que é simulado por um programa de computador. Levy (1996), entende a virtualização como sendo um “processo de transformação de um modo de ser num outro.”, alterando a sociedade, a informação, a economia e a convivência humana. Já Cunha (2019) entende que “A virtualização com pessoas do outro lado da tela, não permite que haja a identificação verdadeira de quem está do outro lado. A autenticidade, nas redes sociais, não existe.”.
- Porquê fingir?
De acordo com o artigo “Novo estudo explica porque razão
partilhamos tanta coisa nas redes sociais”, publicado em 2017 na revista Visão
Saúde, um estudo da Annenberg School for Communication da Universidade da
Pensilvânia concluiu que as publicações têm como principal objetivo obter o
reconhecimento e a aprovação dos outros, chamar a atenção, o que leva para
outra conclusão: estamos focados no nosso “eu”. Assim, os internautas
preocupam-se muito com a opinião que os outros têm deles. Avaliando as
partilhas dos utilizadores, verifica-se que estão relacionadas com aspetos que
irão trazer promoção social e autovalorizarão, contribuindo para o aumento da autoestima.
No entanto, estas publicações também demonstram que querem interagir com os
outros, o que revela vontade de socialização.
- Quais as consequências destas mentiras?
Nas redes, muitos pensam que têm de ser perfeitos e viver uma vida perfeita porque os outros assim são, aparentemente. Ao não conseguir igualar as falsas realidades dos outros, consideram que a sua vida é insignificante. Pior, muitos acabam por sofrer danos na sua saúde mental de tão obcecados se tornam. Estudos vieram provar que as pessoas que passam mais tempo no Facebook sofrem mais de depressão.
A mentira e o fingimento sempre fizeram parte das características do ser humano, no entanto, a internet e as redes sociais vieram amplificar essa mentira. Temos ao nosso dispor uma ferramenta que nos permite alterar a realidade de forma simples, credível e com visibilidade mundial. O que resta do nosso eu verdadeiro? Conseguirá o ser humano ser transparente, mostrar o que realmente é? Não me parece, pois, vive de tal forma envolvido na mentira que criou, que não consegue baixar a máscara, não porque não pode, mas porque não quer, porque procura a aprovação do outro e está em busca da fama, nem que seja por uns segundos. Neste mundo pós-digital, todos procuram ter um lugar para se manterem “vivos”, pois, na sociedade atual, se algo não está nas redes, é porque não existe. As imagens que partilhamos revelam apenas que tentamos ser alguém e não ser esquecido nesta nova realidade.
2. Autenticidade e transparência na rede, uma utopia?
Verificamos que o mundo virtual apresenta falta de autenticidade e transparência, devido à manipulação da realidade pelo Homem. Essa manipulação acontece com as pessoas, que no mundo virtual fingem ser o que não são, como também, com as informações que são veiculadas. Informações falsas, fake news, circulam diariamente na internet com o fim de manipular a opinião das pessoas, nomeadamente na área da política, da saúde, da educação e da segurança. Mais recentemente, assistimos a outra manipulação da verdade, a deepfake.
- Desinformação na rede
Em 2022, foram várias as fake news relativas à guerra na Ucrânia, muitas delas disseminadas pelo próprio Kremlin com o objetivo de justificar a sua decisão e fazer crer ao povo que a ofensiva era inevitável.
Outros exemplos foram a notícia de que Hitler e Eva Braun tinham sido capa da revista Vogue em 1939, ou que a varíola dos macacos foi consequência da vacina contra o Covid-19, ou ainda, que o desodorizante pode causar cancro da mama.
A inteligência artificial desenvolve-se a um ritmo quase incontrolável, produzindo imagens com cada vez melhor qualidade, tornando-se muito difícil distinguir um vídeo real de uma deepfake.
- Como ultrapassar situações de falta de autenticidade e transparência?
De acordo com um artigo do Público, de fevereiro 2023, 80% dos média portugueses já publicaram fake news por se terem baseado no que era difundido nas redes sociais, sem ter verificado primeiro a veracidade da informação. Este dado é muito grave se pensarmos nas consequências. Antes de mais, descredibiliza completamente a profissão de jornalista. Um bom jornalista deve cumprir com as regras do rigor, independência e isenção. Como podem divulgar algo sem verificar a fonte? Por norma, confiamos no que é dito na televisão, na rádio ou nos jornais porque o trabalho foi feito por um jornalista e confiamos na seriedade desses profissionais. A mesma notícia refere um estudo realizado pelo Observatório Ibérico de Media Digitais (Iberifier), em que 58% dos órgãos de comunicação admitiam não possuir protocolo de verificação das informações.
Urge, portanto, encontrarmos soluções para que possamos distinguir as informações verdadeiras das falsas, para garantir autenticidade e transparência das informações presentes na rede.
Recentemente, o jornalista Rafael Ascenção, no artigo “Identificar fake news? Alunos do IADE vão desenvolver aplicação para ajudar” deu conta que o IADE (Faculdade de design, tecnologia e comunicação da Universidade Europeia) desenvolveu uma ferramenta capaz de identificar notícias falsas, através da técnica da verificação por comparação. Esta aplicação irá permitir que jornalistas e cidadãos comuns avaliem a veracidade das informações que circulam, limitando assim a propagação de fake news.
- O que pode fazer o cidadão comum?
Garantir a qualidade da informação e a idoneidade de sua utilização envolve a implementação de práticas rigorosas, tais como: verificação das fontes, comparação com informações oriundas de diversas fontes, utilização de fontes oficiais, uso de ferramentas de verificação de factos, análise crítica, consulta a especialistas, entre outras.
Ascenção, R. (27/11/2023). Identificar fake news? Alunos do IADE vão desenvolver aplicação para
ajudar. Eco-Sapo. https://eco.sapo.pt/2023/11/27/identificar-fake-news-alunos-do-iade-vao-desenvolver-aplicacao-para-ajudar/
Baudrillard, J. (1991). Simulacros e simulação. Relógio d’Água.
Cabrita,
J. (03/04/2019). 84% das pessoas admite
já ter mentido na internet e redes sociais. Delas. https://www.delas.pt/84-das-pessoas-admite-ja-ter-mentido-nas-internet-e-redes-sociais/corpo-e-mente/587575/
Cunha,
M. N., Magano, J. & Alisigwe, S.(2019). A virtualização das redes sociais
segundo o pensamento de Manuel Castells e Pierre Levy. Comunicação &
Mercado/UNIGRAN - Dourados - MS, vol. 07, n. 15, p. 01-10.
Castells, M. (1999). A Sociedade em rede. Paz e
Terra. Vol. 1.
Levy, P. (1996). O que é o virtual? Editora 34.
Levy, P. (2000). Cibercultura. Piaget.
Mais de 80% dos media portugueses já
difundiram notícias falsas baseadas nas redes sociais. Público. https://www.publico.pt/2023/02/15/sociedade/noticia/80-media-portugueses-ja-difundiu-noticias-falsas-baseadas-redes-sociais-2039014
Novo
estudo explica porque razão partilhamos tanta coisa nas redes sociais
(06/03/2017). Visão saúde. https://visao.pt/visaosaude/2017-03-06-novo-estudo-explica-porque-razao-partilhamos-tanta-coisa-nas-redes-sociais/
Porto
Editora (s.d.). Virtual. In Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa.
Recuperado em 14/12/2023 de https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/virtual
Ribeiro, T. (09/06/2023). Em vez de “mostrarem o que
somos”, as redes sociais estão a acentuar “aquilo que falta” e isso está a
destruir a saúde mental dos jovens. Expresso. https://expresso.pt/geracao-e/2023-06-09-Em-vez-de-mostrarem-o-que-somos-as-redes-sociais-estao-a-acentuar-aquilo-que-falta-e-isso-esta-a-destruir-a-saude-mental-dos-jovens-5283cdac
Artigo muito completo e interessante.
ResponderEliminar