A virtualização das relações sociais

Vivemos, de facto, num mundo extraordinário. O vídeo interativo que recria Salvador Dali é de tal modo realista que nos deixa expectante, mas também algo apreensivos, em relação ao que o futuro nos reserva. Este mundo virtual, que nos rodeia e engloba cada vez mais, até é capaz de “ressuscitar” pessoas. Bruxarias diriam os nossos antepassados.

A internet, e por consequente as redes sociais, mudaram a sociedade de forma profunda. Esta nova sociedade que Castells (1999) denominou de “Sociedade em rede” surgiu com o desenvolvimento das novas tecnologias, as quais fizeram com que o mundo fosse mais rápido, próximo e conectado, influenciando, também, a cultura. É o que Levy (2000) refere como cibercultura. À medida que a internet evolui, altera-se cada vez mais a sociedade. Conceitos como virtualidade, transparência, autenticidade, fake news, deepfakes surgiram e remetem para uma nova realidade. Uma realidade tão envolvida em virtualidade que se confunde com ela, tal como anunciado por Baudrillard quando afirmava que a sociedade tinha deixado de existir e que vivíamos numa representação da realidade difundida pelos média, o tal simulacro.

“O tempo e o espaço alteraram-se e, nas redes sociais, o real não existe”. 
(Baudrillard, 1981)


1. Como nos comportamos no mundo virtual?
Antes de mais, convém definir a palavra “virtual”. De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa da Infopédia, entre muitos significados, virtual refere-se ao que é simulado por um programa de computador. Levy (1996), entende a virtualização como sendo um “processo de transformação de um modo de ser num outro.”, alterando a sociedade, a informação, a economia e a convivência humana. Já Cunha (2019) entende que “A virtualização com pessoas do outro lado da tela, não permite que haja a identificação verdadeira de quem está do outro lado. A autenticidade, nas redes sociais, não existe.”.

Consultando as redes sociais, verificamos que são raras as pessoas que nunca fingiram algo nas suas publicações. Umas usam filtros nas fotos para apagar uma ruga, outras tiram imensas fotografias até chegar à fotografia de perfil perfeita, e outras, ainda, publicam fotos a fingir que praticaram uma atividade física intensa ou que participam numa festa estrondosa, entre muitos outros exemplos.


  • Porquê fingir?

De acordo com o artigo “Novo estudo explica porque razão partilhamos tanta coisa nas redes sociais”, publicado em 2017 na revista Visão Saúde, um estudo da Annenberg School for Communication da Universidade da Pensilvânia concluiu que as publicações têm como principal objetivo obter o reconhecimento e a aprovação dos outros, chamar a atenção, o que leva para outra conclusão: estamos focados no nosso “eu”. Assim, os internautas preocupam-se muito com a opinião que os outros têm deles. Avaliando as partilhas dos utilizadores, verifica-se que estão relacionadas com aspetos que irão trazer promoção social e autovalorizarão, contribuindo para o aumento da autoestima. No entanto, estas publicações também demonstram que querem interagir com os outros, o que revela vontade de socialização

Noutro artigo, publicado em 03/04/2019, na revista Delas, a jornalista Joana Cabrita relata que, de acordo com um estudo publicado na revista Computers in Human Behavior, 84% dos inquiridos admite mentir na internet, sendo que apenas 16% diz ser honesto. 98% considera que as pessoas mentem, por um lado, para preservar um certo anonimato, e, por outro, para parecer mais interessantes e atrativas. A socióloga Rosario Guillén, citada pela S Moda considera quesentimos que precisamos de mentir para ser aceites e parece que a nossa versão virtual é melhor do que a real”. Nesse mundo virtual, já que nada nos impede de ser o que queremos, mostramos, por diversão ou porque a nossa realidade não nos convém, algo que não somos. O parecer torna-se mais importante do que o ser.

  • Quais as consequências destas mentiras?
Criamos um mundo tão falso que nos tornamos refém dele. Grande parte da sociedade vive obcecada com as publicações que faz nas redes sociais e com o número de interações e visualizações das mesmas. 

Nas redes, muitos pensam que têm de ser perfeitos e viver uma vida perfeita porque os outros assim são, aparentemente. Ao não conseguir igualar as falsas realidades dos outros, consideram que a sua vida é insignificante. Pior, muitos acabam por sofrer danos na sua saúde mental de tão obcecados se tornam. Estudos vieram provar que as pessoas que passam mais tempo no Facebook sofrem mais de depressão.

A jornalista Teresa Ribeiro, no seu artigo sobre a geração E, aborda um estudo desenvolvido pela marca Dove e conduzido pela empresa Edelman Data & Intelligence, que refere que 3 em 4 jovens já pensou em alterar a sua aparência física devido ao que vê nas redes sociais e que 86% dos jovens considera-se viciada nessas redes, bastante acima da média europeia. Dois em cada cinco reconhece o impacto negativo das redes na sua própria saúde mental "muito por culpa dos conteúdos tóxicos a que assistem". A conclusão do estudo é assustadora, os jovens querem mudar de aparência devido ao que veem nas redes sociais. Não se referem apenas a um corte de cabelo, falamos de um problema que remete para comportamentos de distúrbios alimentares, automutilação, cirurgias estéticas. Procuram seguir os padrões de uma suposta realidade, não tendo capacidade para entender que a maior parte do que é mostrado é irreal.


Não descurando todas as vantagens e potencialidades das redes sociais, somos obrigados a admitir que existe nelas uma toxicidade muito forte. Daí existirem já muitas entidades a solicitar a implementação de uma legislação que responsabilize as plataformas digitais pelo seu impacto negativo nos utilizadores. Existem, também, muitos movimentos e associações que explicam aos jovens que grande parte dos conteúdos publicados não reflete o que o mundo real é e que não devem alterar o que são para se encaixarem num padrão que nem sequer existe. Há um grande trabalho a realizar, não só com os jovens, como também, com a sociedade em geral.

A mentira e o fingimento sempre fizeram parte das características do ser humano, no entanto, a internet e as redes sociais vieram amplificar essa mentira. Temos ao nosso dispor uma ferramenta que nos permite alterar a realidade de forma simples, credível e com visibilidade mundial. O que resta do nosso eu verdadeiro? Conseguirá o ser humano ser transparente, mostrar o que realmente é? Não me parece, pois, vive de tal forma envolvido na mentira que criou, que não consegue baixar a máscara, não porque não pode, mas porque não quer, porque procura a aprovação do outro e está em busca da fama, nem que seja por uns segundos. Neste mundo pós-digital, todos procuram ter um lugar para se manterem “vivos”, pois, na sociedade atual, se algo não está nas redes, é porque não existe. As imagens que partilhamos revelam apenas que tentamos ser alguém e não ser esquecido nesta nova realidade.

2. Autenticidade e transparência na rede, uma utopia?
Verificamos que o mundo virtual apresenta falta de autenticidade e transparência, devido à manipulação da realidade pelo Homem. Essa manipulação acontece com as pessoas, que no mundo virtual fingem ser o que não são, como também, com as informações que são veiculadas. Informações falsas, fake news, circulam diariamente na internet com o fim de manipular a opinião das pessoas, nomeadamente na área da política, da saúde, da educação e da segurança. Mais recentemente, assistimos a outra manipulação da verdade, a deepfake.

  • Desinformação na rede
Fonte: https://www.bevertsolucoes.com/deepfake-preocupacoes-desafios-e-o-futuro-da-internet

As fake news estão muito presentes na internet. Essas notícias estão tão bem elaboradas, quase sempre apoiadas por vídeos ou fotos, eles também falsos, ou porque são encenados ou porque são descontextualizados, que a maior parte das pessoas acredita no que é veiculado, apesar de muitas dessas informações serem completamente absurdas. Parece que só estamos atentos às fake news no Dia das Mentiras, quando elas, na realidade, fazem parte da nossa vida diária.
Este tipo de notícias pode levar a consequências muito graves. Influencia a capacidade de análise e julgamento dos cidadãos, permitindo que manipuladores ganhem eleições, vendam produtos ou criem o pânico dentro da sociedade. Somos como bonecos nas mãos de um marionetista. E porque não refletimos mais sobre o que nos é dito? Provavelmente pela falta de tempo, pois estamos constantemente a ser confrontados com notícias novas, com informações novas e, não tendo tempo para as analisar, acabamos por acreditar nelas. Essencialmente se forem corroboradas por imagens.
Em 2022, foram várias as fake news relativas à guerra na Ucrânia, muitas delas disseminadas pelo próprio Kremlin com o objetivo de justificar a sua decisão e fazer crer ao povo que a ofensiva era inevitável.
Outros exemplos foram a notícia de que Hitler e Eva Braun tinham sido capa da revista Vogue em 1939, ou que a varíola dos macacos foi consequência da vacina contra o Covid-19, ou ainda, que o desodorizante pode causar cancro da mama.

Outro tipo de desinformação encontra-se nas deepfakes, que consistem numa tecnologia que, usando a inteligência artificial, cria vídeos falsos de pessoas, simulando que dizem determinadas frases de forma muito realista.


Estamos, assim, perante o aperfeiçoamento da desinformação. Em 2019, foram consideradas uma das grandes ameaças para a segurança digital para a década de 2020. Até podemos achar que esta ferramenta é engraçada, o problema é quando começamos a refletir sobre as possíveis consequências desta tecnologia se for usada com más intenções, como difamação, influência de votos etc. Existindo, já, diversas aplicações para criação e manipulação de imagens, conseguimos que qualquer pessoa faça e diga o que queremos, o que pode colocar em risco a democracia. O grau de realismo é tão alto que é fácil os internautas acreditarem no que estão a ver. Este tipo de tecnologia pode ir mais longe, inventando pessoas, forjando provas ou comprometendo pessoas com supostas declarações proferidas pelos próprios.
A inteligência artificial desenvolve-se a um ritmo quase incontrolável, produzindo imagens com cada vez melhor qualidade, tornando-se muito difícil distinguir um vídeo real de uma deepfake
 
  • Como ultrapassar situações de falta de autenticidade e transparência?
O potencial de desinformação das fake news e deepfakes tem gerado bastante preocupação, pois a sociedade irá chegar a um ponto em que não saberá o que é verdade e o que é mentira, acabando por desconfiar de todas as informações que circulam na rede. Outro problema prende-se com a partilha de informações falsas por parte dos internautas, confiando que são verdadeiras. E tal como referiu Goebles, ministro da Propaganda de Adolf Hitler na Alemanha Nazista, “Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade” .
De acordo com um artigo do Público, de fevereiro 2023, 80% dos média portugueses já publicaram fake news por se terem baseado no que era difundido nas redes sociais, sem ter verificado primeiro a veracidade da informação. Este dado é muito grave se pensarmos nas consequências. Antes de mais, descredibiliza completamente a profissão de jornalista. Um bom jornalista deve cumprir com as regras do rigor, independência e isenção. Como podem divulgar algo sem verificar a fonte? Por norma, confiamos no que é dito na televisão, na rádio ou nos jornais porque o trabalho foi feito por um jornalista e confiamos na seriedade desses profissionais. A mesma notícia refere um estudo realizado pelo Observatório Ibérico de Media Digitais (Iberifier), em que 58% dos órgãos de comunicação admitiam não possuir protocolo de verificação das informações.
Urge, portanto, encontrarmos soluções para que possamos distinguir as informações verdadeiras das falsas, para garantir autenticidade e transparência das informações presentes na rede.
Recentemente, o jornalista Rafael Ascenção, no artigo “Identificar fake news? Alunos do IADE vão desenvolver aplicação para ajudar” deu conta que o IADE (Faculdade de design, tecnologia e comunicação da Universidade Europeia) desenvolveu uma ferramenta capaz de identificar notícias falsas, através da técnica da verificação por comparação. Esta aplicação irá permitir que jornalistas e cidadãos comuns avaliem a veracidade das informações que circulam, limitando assim a propagação de fake news.

  • O que pode fazer o cidadão comum?
Considerando todos os perigos que representam as notícias falsas, assegurar a autenticidade da informação é crucial, sendo que a combinação de várias dessas práticas aumenta a probabilidade de alcançar esse objetivo:




A validação da autenticidade da informação pode ser efetuada por diversos agentes, como por exemplo, os jornalistas (desde que verifiquem as suas fontes), agências de verificação de factos, especialistas, órgãos governamentais e organizações internacionais, comunidades online, tecnologias com ferramentas de verificação (por ex. politifact, newsguard, google fact check tools…) e, ainda, as redes sociais, umas vez que muitas já implementaram políticas e ferramentas para combater a disseminação de informações falsas. 
Garantir a qualidade da informação e a idoneidade de sua utilização envolve a implementação de práticas rigorosas, tais como: verificação das fontes, comparação com informações oriundas de diversas fontes, utilização de fontes oficiais,  uso de ferramentas de verificação de factos, análise crítica, consulta a especialistas, entre outras.

Fonte: Polígrafo.sapo.pt


A evolução das tecnologias e da inteligência artificial traz-nos imensos benefícios, no entanto, usadas de forma incorreta, encaminham-nos para um mundo falso e irreal, onde a mentira e a verdade se confundem, com todas as consequências já aqui referidas. A colaboração e a transparência são fundamentais para garantir que as informações sejam precisas e confiáveis. Refletir, questionar, analisar, interpretar, ter um pensamento crítico são estratégias para minimizar o impacto da falta de autenticidade e transparência na rede.


Referências bibliográficas:

Ascenção, R. (27/11/2023). Identificar fake news? Alunos do IADE vão desenvolver aplicação para ajudar. Eco-Sapo. https://eco.sapo.pt/2023/11/27/identificar-fake-news-alunos-do-iade-vao-desenvolver-aplicacao-para-ajudar/

Baudrillard, J. (1991). Simulacros e simulação. Relógio d’Água.

Cabrita, J.  (03/04/2019). 84% das pessoas admite já ter mentido na internet e redes sociais. Delas. https://www.delas.pt/84-das-pessoas-admite-ja-ter-mentido-nas-internet-e-redes-sociais/corpo-e-mente/587575/

Cunha, M. N., Magano, J. & Alisigwe, S.(2019). A virtualização das redes sociais segundo o pensamento de Manuel Castells e Pierre Levy. Comunicação & Mercado/UNIGRAN - Dourados - MS, vol. 07, n. 15, p. 01-10.

Castells, M. (1999). A Sociedade em rede. Paz e Terra. Vol. 1.

Levy, P. (1996). O que é o virtual? Editora 34.

Levy, P. (2000). Cibercultura. Piaget.

Mais de 80% dos media portugueses já difundiram notícias falsas baseadas nas redes sociais. Público. https://www.publico.pt/2023/02/15/sociedade/noticia/80-media-portugueses-ja-difundiu-noticias-falsas-baseadas-redes-sociais-2039014

Novo estudo explica porque razão partilhamos tanta coisa nas redes sociais (06/03/2017). Visão saúde. https://visao.pt/visaosaude/2017-03-06-novo-estudo-explica-porque-razao-partilhamos-tanta-coisa-nas-redes-sociais/

Porto Editora (s.d.). Virtual. In Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa. Recuperado em 14/12/2023 de https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/virtual

Ribeiro, T. (09/06/2023). Em vez de “mostrarem o que somos”, as redes sociais estão a acentuar “aquilo que falta” e isso está a destruir a saúde mental dos jovens. Expresso. https://expresso.pt/geracao-e/2023-06-09-Em-vez-de-mostrarem-o-que-somos-as-redes-sociais-estao-a-acentuar-aquilo-que-falta-e-isso-esta-a-destruir-a-saude-mental-dos-jovens-5283cdac



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