Cibercultura selon Pierre Levy | Apresentação de exemplos

A obra Cibercultura de Pierre Levy foi publicada em 1997 e resulta de um relatório que o autor redigiu a pedido do Conselho Europeu, o qual pretendia analisar as consequências, culturais e sociais, das novas tecnologias. Ele define, na p. 17, o termo “cibercultura” como sendo “um conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), de práticas, de atitudes, de modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço”. Quanto a este último conceito, considera que é “o novo meio de comunicação que surge da interconexão mundial dos computadores.” Junta assim três dimensões: “a infraestrutura material da comunicação digital”, as informações disponibilizadas na rede e os utilizadores. Considera que, cada vez mais, os laços sociais vão-se afastar do contexto territorial para evoluir para comunidades virtuais, onde pessoas com interesses semelhantes se irão juntar.

Pierre Levy, Cibercultura e inteligência coletiva (2001)

A cibercultura é um movimento que ele considera social. Entende que altera os paradigmas da democracia e da igualdade social pois, ela permite que o conhecimento chegue a todos e que seja criado por todos, coletivamente. No ciberespaço, ideias, conhecimentos, experiências são partilhadas constantemente, contribuindo para o desenvolvimento de uma “inteligência coletiva”. A cibercultura será, portanto, um sistema aberto, em constante evolução, onde todos podem colaborar. A toda a hora, são acrescentados novos dados. Neste contexto, já não existem barreiras físicas nem temporais. Em qualquer sítio e a qualquer hora, os indivíduos podem contribuir para a cibercultura, para a inteligência coletiva. A cibercultura vai “ganhando terreno” a cada dia que passa, estando cada vez mais indivíduos digitalmente interconectados, formando comunidades com os mesmos interesses. Permite a descentralização da informação, ou seja, os indivíduos, para além de “consumidores” da informação e do conhecimento, podem também ser “produtores de conteúdos”.

Levy considera, assim, que as novas tecnologias são agentes da mudança cultural. Estas tecnologias alteraram a nossa maneira de aceder à informação, mas também redefiniram as interações humanas, a construção do conhecimento e a própria natureza da identidade num mundo cada vez mais conectado digitalmente. No entanto, refere que “O virtual não substitui o real, ele multiplica as oportunidades para atualizá-lo.”Todas as redes criadas em torno desta inteligência coletiva devem servir para promover o conhecimento e a aprendizagem, devem servir para que os cidadãos reflitam sobre todos os assuntos, incluindo políticos.

Outro aspeto abordado por Levy é a existência da universalidade sem totalidade. A cibercultura é universal, porque se estabelece através da comunicação em rede, espalha-se e abrange todo o mundo, tal como, por exemplo a religião ou a ciência. No entanto, é aberta, ou seja, é um espaço onde cada um pode ter as suas ideias, onde não há um pensamento único.

Na obra Cibercultura, Levy reflete essencialmente sobre as potencialidades deste movimento, não abordando as suas limitações ou desvantagens. Ao canal de Youtube Sciences Po Executive Education, em 2015, Levy comentava que “não sendo tudo perfeito, devemos usar as possibilidades dadas pela cibercultura da forma mais inteligente possível”. Pontos negativos existem em todas as vertentes da nossa vida, da nossa cultura. Cabe-nos a nós, membros desta cibercultura, fazer valer todas as potencialidades desta ferramenta.

Master class de Pierre Levy: Vers une intelligence collective réflexive (03/07/2015)



Em relação a exemplos de cibercultura, irei aprofundar a cultura de blogging, de crowdsourcing e de podcasts.

1.Blogging

Tendo surgido em meados da década de 90, os blogues são uma espécie de página pessoal onde indivíduos partilham, publicamente, diferentes informações que consideram relevantes para a restante população. De muito fácil criação e de acesso gratuito, os blogues podem ser pessoais, sendo assim considerados como um diário eletrónico, onde cada um fala sobre a sua vida, acontecimentos, hobbies… Os blogues foram inicialmente pensados para esta utilização. Evoluíram rapidamente para um uso mais especializado, abrangendo um leque diversificado de tópicos, desde moda, beleza e estilo de vida até desporto, educação, tecnologia, ciência e política. Finalmente, passaram também a ser usados na área comercial e do marketing.

As estimativas apontam para a existência de mais de 600 milhões de blogues no mundo inteiro, sendo as plataformas mais usadas para a sua criação o WordPress, Blogger, Medium, Tumblr e Squarespace.

Os blogues podem agregar diferentes formatos de conteúdos, desde texto, imagens, infográficos até vídeos, áudios e apresentações de diapositivos. Os posts, que devem idealmente ser muito frequentes, são apresentados de forma cronológica, do mais antigo ao mais recente, podendo também ser atribuídas etiquetas a cada um, o que facilita a pesquisa por um ou outro tema.

Todos os dias, efetuam-se milhões de novos posts, contribuindo, assim, para um exponencial aumento do conhecimento coletivo. Estudos revelam que cerca de 77% dos usuários da internet leem blogues regularmente e, sendo que estes são classificados como a quinta fonte mais confiável de informações online, de acordo com o site Searchenginepeople.

Relativamente a blogues educativos em Portugal, em 2020, a plataforma de recursos educativos Twinkl escolheu os seguintes como sendo os melhores, nesse ano:
*EduProfs
*Blog DeAr Lindo
*Correntes
*Ensino Básico
*Professor João

 

2. Crowdsourcing

Não podendo ser confundida com brainstorming, a primeira referência ao crowdsourcing data do ano 2006, tendo sido definido por Howe, na revista, Wired como sendo “o ato de uma empresa ou instituição pegar numa função realizada pelos seus funcionários e terceirizar para uma rede indefinida (e geralmente grande) de pessoas, na forma de um convite aberto. Isso pode assumir a forma de peer-produção (quando o trabalho é realizado em colaboração), mas também pode ser realizado por indivíduos únicos. O pré-requisito fundamental é o uso do formato de convite aberto e a grande rede de potenciais colaboradores ".

É um processo, essencialmente online, que permite obter contribuições, ideias, serviços ou conteúdos de um vasto grupo de pessoas de diversas origens, podendo ser trabalhadores voluntários e/ou trabalhadores a tempo parcial. É, frequentemente, utilizado para encontrar soluções inovadoras para problemas complexos, aproveitando o conhecimento coletivo. A diversidade do grupo faz com que os problemas sejam analisados sob diferentes perspetivas. É um recurso usado, por exemplo, para realizar trabalhos de grande envergadura, que seriam muito morosos se fossem realizados por uma pessoa ou um pequeno grupo de pessoas.

O crowdsourcing é aplicado em diversos setores, incluindo tecnologia, design, ciência, negócios, entretenimento, entre outros. Como exemplo de crowdsourcing, encontramos a Wikipedia, onde cada um de nós pode acrescentar dados às informações encontradas nesta que já é a maior enciclopédia do mundo. Também temos o OpenStreetMap (criação de mapas detalhados e gratuitos) ou, ainda, o Kickstarter (plataforma de financiamento coletivo em que indivíduos apoiam financeiramente projetos criativos).

Este recurso traz muitos benefícios como o desenvolvimento de novas ideias, a redução dos tempos de investigação, a redução de custos, a resolução de problemas complexos (científicos ou outros). Existe também a ideia de que um recurso elaborado por muitas pessoas será mais completo e assertivo do que um construído por um grupo restrito. Remete ainda para uma estratégia de inovação aberta que permite às empresas, que recorrem ao crowdsourcing, aceder a uma ampla variedade de ideias e a talentos externos.

C. Brabham (2013) define quatro tipos de crowdsourcing, em função das características dos problemas colocados:

  • Descoberta do Conhecimento e Gestão – para pesquisar e reunir informações, é adequado para a criação de recursos coletivos.
  • Inteligência Humana Distribuída em Multitarefas – para processar e analisar uma grande quantidade de informações.
  • Pesquisa Broadcast - para encontrar uma solução para problemas objetivos, como problemas científicos.
  • Ponto-vetados de Produção Criativa - para encontrar uma solução para problemas subjetivos, como problemas políticos.

A cultura de crowdsourcing representa uma mudança na forma como as tarefas são realizadas e os problemas são abordados, incentivando a participação ativa e a colaboração em escala global.

 

3. Podcasts

Esta cultura refere-se à produção e ao consumo de conteúdos, em formato áudio, sobre uma grande variedade de temas, permitindo que pessoas compartilhem ideias e histórias de maneira acessível e, quase sempre, de forma gratuita. Os podcasts abordam uma vasta variedade de tópicos, podendo ser informativos, educacionais, de entretenimento, entrevistas, narrativas, ficção, debates e muito mais.

Organizados em episódios, mais ou menos longos e publicados de forma regular e frequente, são distribuídos usando feeds RSS, o que permite que os ouvintes, que assinaram um determinado podcast, recebam notificações sempre que surge um novo episódio. Podem ser considerados como uma forma popular de consumir conteúdo, sendo uma alternativa aos tradicionais meios de comunicação.

Desde qualquer dispositivo, é possível aceder a podcasts, sendo várias as plataformas que os compilam, sendo as mais usadas Apple Podcasts, Spotify, Google Podcasts, entre outras. Além disso, muitos podcasts têm os seus próprios sites.

São vários os motivos pelos quais as pessoas ouvem podcasts: para se manterem informadas, por entretenimento, pelo lado prático de poder ouvir e realizar outra(s) tarefa(s) ao mesmo tempo, por sentirem uma ligação com os criadores dos podcasts os podcasters, pela diversidade dos temas disponíveis. Muitos também os ouvem para se sentirem bem, como instrumentos de autoajuda e desenvolvimento pessoal.


Por estes motivos, são cada vez mais populares, estando em constante crescimento o número de ouvintes de podcasts, prevendo-se que este aumento continue em 2024, de acordo com os dados da empresa Statista:
 

Os podcasters costumam disponibilizar os seus conteúdos de forma gratuita de forma a alcançar um público mais numeroso, podendo obter algum tipo de receita recorrendo a publicidade e patrocínios, financiamento coletivo, venda de produtos associados ao próprio podcast ou assinaturas premium, que permitem aceder a conteúdos exclusivos.


De acordo com o site Podtail, os cinco podcasts mais ouvidos em Portugal, em novembro de 2023, são:

  1. O encantador de ricos
  2. Poucos mas bons – Radio Comercial
  3. Extremamente desagradável – Rádio Renascença
  4. Inacreditável by Inês Castel-Branco – Rádio Comercial
  5. O homem que mordeu o cão – Rádio Comercial

Devido à versatilidade e acessibilidade dos podcasts, estes revestem, também, um forte potencial educativo. Cada pessoa/aluno pode ouvir e aprender sobre o tema que quiser, onde e quando quiser. Ao ser um recurso narrado, também se torna bastante interessante e mais fácil de entender. É um recurso em constante atualização, sendo possível ouvir entrevistas a especialistas e, assim, adquirir novos conhecimentos. Os próprios alunos podem criar podcasts, desenvolvendo capacidades de pesquisa, narração, edição e de apresentação oral.

 

Documentos e sites consultados:

 

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