A Revolução tecnológica vista por Paul Virilio



“O nosso mundo é catastrófico, apocalíptico e maravilhoso” (1997)

Esta frase da autoria de Virilio revela o que este filósofo e urbanista francês achava do mundo e da revolução tecnológica que o estava a começar a assolar nos anos 80.
Nascido em 1932 e falecido em 2018, Paul Virilio muito refletiu e escreveu sobre a revolução tecnológica, sobre as suas consequências sociais, políticas e culturais.

Velocidade incontrolável?
Em 1977, baseando-se no conceito da velocidade, cujo estudo nomeou de dromologia, desenvolveu a ideia de que vivemos num mundo cada vez mais veloz, sendo que, à medida que essa velocidade vai aumentando, torna-se cada vez mais difícil de o abandonar. Compara esta situação a uma viagem de comboio a alta velocidade. Uma vez que nos envolvemos neste mundo tecnológico, dificilmente voltaremos atrás.

Pessimista ou visionário?
Ele desenvolveu as suas ideias no final dos anos 80, muito antes da universalização da internet. Foi então considerado "tecnófobo", um “anti-evolução”, um pessimista. No entanto, ele não era contra a revolução tecnológica e afirmava não estar contra o progresso. Ele apenas se considerava como um “revelacionário”.
Considerava que qualquer progresso trazia com ele aspetos negativos. Desenvolveu, então, a teoria do acidente. Exemplificou explicando que, ao inventar o avião, foi automaticamente inventado o acidente de avião. Esta realidade obrigou a humanidade a refletir sobre como evitar essas ocorrências e a inventar equipamentos e técnicas para tal. Assim, ele não quer trazer más notícias. Pretende, apenas, que as pessoas tenham cautela e que reflitam sobre os possíveis acidentes que a revolução tecnológica pode causar, precisamente para que sejam evitados.

Democracia fraca?
Ele também se preocupou bastante com as consequências políticas das tecnologias e da aceleração da informação. Ele considerou que a democracia podia ser posta em causa, falava em “democracia fraca”.
Argumentou que uma ideia necessitava de tempo para ser pensada, debatida, amadurecida. Ora, na sociedade tecnológica, esse tempo não existe. Tudo tem de ser já e agora. Considerou, portanto, que esta velocidade representava um perigo político. O que é hoje já não é amanhã e as pessoas logo esquecem o que aconteceu há poucos dias. Assim, é mais fácil “manipular” os votos e opiniões. Ele tinha, assim, receio daquilo que os políticos poderiam fazer usando as novas tecnologias.
Foi mais longe considerando que esta velocidade e o facto de não se ter tempo para refletir é uma espécie de conforto para muitos, pois não têm de pensar no que realmente acontece no mundo, nas crises dramáticas que se vivem. Refere, até, que procuramos essa velocidade, pois “conforta-nos”.

O que pensava sobre democracia do acesso à informação e globalização da informação?
Sobre Democracia do acesso à informação e globalização da informação, estamos perante dois conceitos interrelacionados e com grande influência sobre a nossa sociedade. O primeiro refere-se ao acesso livre e equitativo, de qualquer cidadão, à informação, essencialmente com recurso à internet, princípio que consideramos de democrático, pois promove a igualdade entre os cidadãos. Porém, este princípio só poderá ser completamente democrático quando, de facto, todos os cidadãos tiverem acesso a essas informações. 
A democracia do acesso à informação capacita os utilizadores a refletir sobre assuntos importantes para a sociedade, permitindo-lhes tomar decisões de forma consciente e informada, participar na sociedade e exercer os seus direitos. Ao contrário do que acontece em sociedades autoritárias, onde os cidadãos devem aceitar tacitamente o que lhes é imposto e onde se pretende que não haja reflexão, as sociedades democráticas incentivam o pensamento, sendo considerado condição sine qua non para o avanço da sociedade.
A globalização da informação refere-se ao aumento da troca de informações e comunicações, facilitada pela criação de motores de busca como o Google que, num segundo, apresenta-nos tudo o que está disponível sobre determinado assunto, qualquer que seja o país onde essa informação se encontra.
Virilio mostrou alguma preocupação relativamente à globalização da informação, nomeadamente, sobre as suas consequências para a cultura, temendo uma uniformização cultural e uma perda das características culturais dos territórios e comunidades locais. Este acesso universal à informação permite que se tenham maiores conhecimentos, no entanto, podem existir riscos quando pensamos das informações falsas, as tais fake news, disseminadas na internet. Assim, a globalização da informação fortalece a democracia, ao mesmo tempo que a desafia. 
Considero que uma sociedade informada será sempre uma sociedade em evolução, positiva, onde os assuntos são discutidos com base em dados verdadeiros. Relativamente às informações errôneas que circulam na internet, penso que devemos formar, cada vez mais, os alunos e os cidadãos a saber interpretar o que leem na internet e a verificar se as notícias que surgem são verdadeiras. Há que considerar que, se sites difundem ideias e informações falsas, são muitos mais os que transmitem a verdade. A inteligência coletiva deverá precaver estas situações e, sendo impossível controlar as fake news, será muito mais importante instruir as pessoas a refletir e a analisar as informações disponíveis.

Previsões corretas?
Volvidos mais de trinta anos, o que achar destas ideias? Nos anos 90, previu o teletrabalho, as videoconferências e as compras online. Quando todos só viam maravilhas na internet, ele denunciava muitos pontos negativos. Se antes era visto como um pessimista, podemos agora dizer que era um visionário.
O que ele anunciou, verifica-se e deveríamos todos refletir mais sobre essas teorias. Quem não se queixa da falta de tempo? Quem não se sente, por vezes, como refém das tecnologias, o que ele nomeou a “tirania do virtual” e a “ditadura do instantâneo”? Quem não conhece alguém que foi alvo de roubo de perfil nas redes sociais, de ciberbullying, de esquemas de fraude e burla? Hoje, todos somos apelados a ter cuidado com aquilo que publicamos na internet, a proteger os nossos dados, a ter cautela com os links que recebemos, etc. Na dark web, a internet é usada para os piores fins. Se são inúmeros os benefícios que a internet e a revolução tecnológica trouxeram, são também muitos os danos que podem provocar.
O que referiu sobre a fraqueza da democracia também se verifica. Quem ainda se lembra dos escândalos políticos e económicos dos últimos dez anos? Quando alguém refere algo, pensamos “Pois foi… Lembro-me de qualquer coisa”. É que o ele chamou de amnésia coletiva. Num estudo datado de 2019, a Universidade de Oxford concluiu que setenta países tinham recorrido às redes sociais para realizar manipulação política. Um político que tenha uma boa imagem nas redes sociais e na internet em geral é um político que, muito provavelmente, terá bons resultados eleitorais, independentemente das ideias que transmite. A imagem vale muito na nossa sociedade, para o bem como para o mal. Ele falava em poluição da imagem.
Na entrevista “La télévision est-elle dangereuse pour la démocratie ?”, referia o esquecimento da história, a “industrialização do esquecimento”. Certos factos históricos estão a ser refutados, como, por exemplo, a existência dos campos de concentração. Estas ideias são publicadas na internet e ganham adeptos. Certas pessoas querem apagar a história, quando é ela que nos permite conhecer as nossas origens, a nossa cultura e evita repetir erros do passado. Circularem estas ideias falsas na internet torna-se perigoso quando sabemos que a inteligência artificial e os chatbot constroem os seus textos e conversas a partir das informações que encontram na internet. Não sabendo distinguir o verdadeiro do falso, podem começar a divulgar factos errados que irão levar ao esquecimento global.
Observando o que se passa à nossa volta, verificamos que a maioria das pessoas está mais desmotivada, egoísta e preocupada com a sua vida, revelando-se bastante indiferente às desgraças do mundo e do próprio vizinho. É mais fácil não refletir sobre o assunto… Vivemos numa sociedade completamente interconectada, vivemos numa “meta-cidade”, conforme nomeou Virilio, onde todas as pessoas podem encontrar-se virtualmente, no entanto, muita gente sente-se só, isolada. Esta sociedade valoriza-se quem está nos ecrãs e desvaloriza-se quem está ao nosso lado. E neste mundo conectado, o que advém dos excluídos da cibercultura, perguntava Virilio?

Virilio previu tudo? 
A cibercultura, definida por Levy (2000), remete para o conceito de inteligência coletiva. Uma inteligência acessível a todos os “conectados”, sendo que todos podem contribuir para a sua construção, dando a sua opinião, participando nas discussões, por vezes mundiais, sobre um ou outro assunto. Esta inteligência coletiva não conhece fronteiras, é universal. Levy entende que todas as redes criadas em torno desta inteligência coletiva devem servir para promover o conhecimento e a aprendizagem, devem servir para que os cidadãos reflitam sobre todos os assuntos, incluindo políticos.
Virilio, ao longo dos seus estudos, das suas intervenções televisivas e radiofónicas, sempre se focou sobre os perigos das tecnologias, no tal acidente que ele considerava ser necessário prevenir. Não se debruçou sobre as suas vantagens para a Humanidade.
Sendo certo que Virilio tem razão em muitos aspetos, devemos também reconhecer que a inteligência coletiva veio alterar, e muito, o conhecimento humano. A sua intenção de ser acessível a todos, em que todos podem contribuir para a construção da sabedoria, em que todos são convidados a refletir e a encontrar soluções, permite um grande avanço do conhecimento e da Humanidade.

A inteligência coletiva como meio de prevenção do “acidente”?
Como maneira de evitar o acidente, Virilio dava a solução da “escrita”. Considerava que não havia reflexão escrita, o que era péssimo para a Humanidade e para a democracia. Ele defendia a “escrita contra os ecrãs”.
Porém, será que a cibercultura e a inteligência coletiva não podem ser um travão para abrandar a velocidade do avanço tecnológico? Parece-me que sim. Virilio defendia a escrita, o tempo para pensar e é precisamente o que a inteligência permite fazer. Comunidades virtuais juntam-se para discutir problemas e encontrar soluções. No entanto, conforme já referido, deverá existir cautela no que diz respeito à inteligência artificial, pois esta também difunde ideias falsas, porque não distingue o verdadeiro do falso. O ser humano, ao tomar como verdadeiras essas informações, ao não refletir sobre o que lê, poderá contribuir para o esquecimento da história.
Conforme também já referido, a imagem vale muito no nosso mundo, sendo aproveitada pelos políticos para angariar votos. Deverá também haver cautela a e inteligência coletiva deverá existir para recordar às comunidades determinados eventos passados e levar todos a parar para refletir. Sendo certo que, desde o surgimento da Humanidade, sempre houve tempos de guerra e terror, momentos terríveis e, até, retrocessos na evolução da sociedade, não me parece que esta irá piorar devido à existência das tecnologias. Antes pelo contrário, graças à inteligência coletiva, temos a oportunidade de adquirir muitos mais conhecimentos, de uma forma mais simples e rápida. Em termos de saúde, os avanços tecnológicos já permitiram salvar muitas vidas. O ser humano tem essa oportunidade e capacidade, falta saber se a maioria a irá aproveitar. Pois, conforme referiu Virilio, muitos preferem não ter de pensar e outros sentem-se completamente ultrapassados pela velocidade a que vive o mundo, apelidando esta situação de inércia social.


Virilio foi "absolutista" nas suas ideias?
De facto, Virilio fez prova de pessimismo em relação às consequências da revolução tecnológica para a humanidade, focando-se unicamente na catástrofe que poderia acontecer. Ao longo dos tempos, as entrevistas que dá e os textos que escreve referem sempre o tal acidente e a evolução da sociedade a uma velocidade incontrolável. No entanto, ele próprio afirma que só pretende levar as pessoas à reflexão. Eu penso que é precisamente isso que a inteligência coletiva proporciona. 
Embora, nas redes sociais e outros fóruns e plataformas, se reflita sobre mil e um assuntos, a evolução tecnológica é um tema muito estudado e analisado, estando muitos estudiosos e cidadãos em geral atentos à evolução desta nossa sociedade em rede. Basta observarmos todos os atuais debates sobre a inteligência artificial. Estão a ser analisados os prós e contras deste recurso e, sendo reconhecida a sua utilidade, estão a ser discutidos os limites que deveriam ser impostos. Não podemos ter uma interpretação demasiada pessimista desta nova sociedade. Estamos apenas a viver tempos diferentes e a evoluir para uma sociedade diferente, tal como ocorreu quando o homem inventou a agricultura e passou a viver de forma sedentária. Ao longo dos séculos, houve sempre acontecimentos que fizeram evoluir drasticamente a sociedade e alteraram o rumo que estava a seguir.



Referências:
-Agência Brasil (2019). Estudo aponta manipulação política pela internet em 70 países. Universidade de Oxford. https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2019-09/estudo-aponta-manipulacao-politica-pela-internet-em-70-paises-em-2019
-Lévy, P. (2000) Cibercultura. Lisboa: Piaget.
-Virilio, P. (1997) La tyrannie de la vitesse. France Culture. https://www.youtube.com/watch?v=uh2CDa147iw&ab_channel=FranceCulture
-Virilio, P. (1977). Vitesse et politique: essai de dromologie. Galilée.
-Virilio, P. (1993). La télévision est-elle dangereuse pour la démocratie ?. INA Podcasts. https://www.youtube.com/watch?v=yy-CVC63ee4&ab_channel=INAPodcasts
-Virilio, P. (1993). La pollution par les nouvelles technologies.| Archive INA. https://www.youtube.com/watch?v=KNwYcRzzk4U&ab_channel=InaCulture
-Virilio, P. (1993) A Inércia Polar. Lisboa: D. Quixote.
-Virilio, P. (2004). "Je crains que le nihilisme ne revienne en ayant un programme de la fin". France Culture. https://www.youtube.com/shorts/1zBjhY9Y-vY

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