Ecossistemas de Educação Digital, uma forma inovadora de pensar a Educação
No âmbito da disciplina “Ambientes Virtuais de Aprendizagem” fomos
desafiados pelo Prof. António Moreira a refletir sobre o que é um Ecossistema
de Educação Digital, como se pode desenvolver, quem são os seus
"habitantes", que ambientes podem ser criados e que configurações
pode assumir. Das nossas reflexões surgiu um debate muito interessante e
participado em que abordamos diversos assuntos relacionados com o tema dos Ecossistemas
de Educação Digital, a educação do futuro, gerações analógicas e digitais,
desafios associados à mudança, entre outros.
Apresento, assim, a minha perspetiva sobre esses temas, decorrente das leituras que efetuei e das conclusões que elaborei a partir das ideias abordadas no debate.
Apresento, assim, a minha perspetiva sobre esses temas, decorrente das leituras que efetuei e das conclusões que elaborei a partir das ideias abordadas no debate.
Esta frase, da autoria do prof. António Moreira, foi retirada do 16.º webinar | Ecossistema(s) de Educação Digital e Ambientes Híbridos de Aprendizagem, organizado pela Porto Editora/Escola Virtual. Achei-a particularmente interessante por ser apaziguadora, pois, coloca no devido lugar as tecnologias, destacando a figura sempre essencial do docente. As tecnologias são importantes para potenciar a qualidade dos processos educativos, no entanto, o foco é a relação humana, a interação entre professor e alunos.
Todos temos noção de que o mundo evolui constantemente e de que a Pandemia constituiu uma grande viragem no que diz respeito ao virtual, acelerando a transição digital em diversas áreas, incluindo a Educação. Verifica-se, assim, um forte desenvolvimento do conceito de ecossistema digital, constituído por diferentes ambientes de aprendizagem, considerado como fundamental para o avanço da Educação e da qualidade do ensino.
“Um ecossistema digital assume-se, assim, em contexto educacional, como um sistema de aprendizagem em rede que apoia a cooperação, a partilha do conhecimento, o desenvolvimento de tecnologias abertas e a evolução de ambientes ricos em conhecimento, sendo que a sua criação depende exclusivamente das interações entre as espécies, as comunidades e o meio ambiente, entre os fatores bióticos e abióticos.” (Moreira et al., 2020).
Um ecossistema de educação digital remete para um ambiente que vai para além da sala de aula, juntando tecnologias e pedagogia. Cria um ambiente complexo, dinâmico, híbrido e interativo, promotor de inclusão, incorporando diversas tecnologias e plataformas, as quais são consideradas atores, partes integrantes do processo. Implica a integração de diferentes tecnologias em ambientes de aprendizagem, os quais devem ser complementares, com o objetivo de enriquecer e aumentar a qualidade do ensino. São, assim, criados ambientes de aprendizagem propícios a uma aprendizagem flexível e colaborativa, centrada no aluno, e influenciada pelas conexões entre os indivíduos e as tecnologias (Siemens, 2004) .
A criação desses ecossistemas é considerada essencial para muitos intervenientes, tão essencial que a União Europeia colocou como primeira prioridade no seu Plano de Ação para a Educação Digital (2021) “Promover o desenvolvimento de um ecossistema de educação digital altamente eficaz”. Refere seis ações pontuais para alcançar esse objetivo, através do planeamento de ações conjuntas e simultâneas que envolvem políticas públicas de cada país membro da UE e a aplicação dessas políticas ao nível regional e local nas instituições de ensino.
De acordo com Wilkinson (2002), são várias as tecnologias que podem constituir um ecossistema digital de aprendizagem:
-Taxonomia de conteúdos partilhados;
-Learning Management Sytems/Sistemas de Gestão de aprendizagem, como o Moodle por exemplo, que permite aos professores criar um ambiente virtual de ensino, com possibilidade de gestão dos conteúdos, interação com alunos e, até, micro-learning;
-Sistemas de gestão de conteúdos de aprendizagem;
-Repositórios de objetos de aprendizagem;
-Sistemas de gestão do fluxo de trabalho;
-Motores de avaliação;
-Motores de simulação e jogos;
-Ferramentas de colaboração e discussão;
-Elementos de suporte e orientação.
Essas tecnologias devem ser escolhidas em função dos objetivos que o docente pretende alcançar e das especificidades dos alunos envolvidos no processo (Bates, 2017). No entanto, para que esta medida tenha sucesso, é necessário proporcionar a capacitação dos docentes na área das tecnologias digitais para que desenvolvam práticas pedagógicas inovadoras.
Encontramos diversos “habitantes” nestes ecossistemas: os fatores bióticos que formam as comunidades de aprendizagem, onde se encontram os estudantes, professores e conteúdos e os fatores abióticos que remetem para as tecnologias de aprendizagem (Moreira et al., 2020).
Ocupando uma posição central, encontramos os estudantes e professores. Os estudantes revelam cada vez maior exigência e envolvimento relativamente às metodologias e estratégias de ensino, com grande destaque para as chamadas gerações Z (nascidos entre 1997 e 2010) e Alpha (nascidas a partir de 2010). Assumem um papel muito ativo, responsabilizando-se pela sua própria aprendizagem, estudando de forma autónoma. Se a geração Z ainda distingue o online do offline, a geração Alpha já não identifica essa fronteira, pois nasceu num mundo hiperconectado, onde a produção de conteúdos é natural, desconhecendo totalmente o mundo analógico.
É uma geração
constantemente estimulada, em contacto contínuo com todo o tipo de informações,
ou seja, em constante aprendizagem, qualquer que seja o ambiente. Temos, assim,
um novo perfil de aluno com o qual o professor tem de aprender a trabalhar,
sendo necessário propor-lhes atividades dinâmicas e motivadoras, que vão para
além da simples transmissão de conhecimentos que o aluno pode encontrar em
qualquer dispositivo. Torna-se, assim, urgente o professor mudar de metodologias. Deve orientar
os alunos nas suas aprendizagens, devendo desenvolver atividades que irão
despertar a curiosidade dos estudantes e, sendo fundamental, deve criar uma relação
pedagógica e afetiva com os seus alunos, uma relação humana, com constantes
feedback's.
Nestes ecossistemas, também contamos com salas de aulas virtuais, onde alunos e professores se encontram para partilha de conhecimentos, atividades, debates. Incluem, ainda, especialistas em conteúdos digitais e técnicos responsáveis pela manutenção da infraestrutura tecnológica, entre outros.
-Ambientes de aprendizagem
Nestes ecossistemas, também contamos com salas de aulas virtuais, onde alunos e professores se encontram para partilha de conhecimentos, atividades, debates. Incluem, ainda, especialistas em conteúdos digitais e técnicos responsáveis pela manutenção da infraestrutura tecnológica, entre outros.
Os ecossistemas podem criar diversos ambientes (salas de aulas virtuais, laboratórios virtuais, comunidades online, entre outros), os quais podem assumir diferentes configurações, tais como ensino presencial e/ou online ou, até, formatos totalmente virtuais, permitindo flexibilidade, personalização e acessibilidade na educação. Estes ecossistemas integram diferentes métodos e tecnologias de ensino para criar ambientes de aprendizagem ricos, dinâmicos e adaptativos (Schlemmer & Moreira, 2019).
Surge assim o conceito de educação onlife, uma
abordagem de aprendizagem que integra as experiências online e offline
dos estudantes, reconhecendo que a vida digital e a vida física estão cada vez mais
entrelaçadas. Esse conceito surgiu como resposta à evolução tecnológica e ao
aumento da conectividade, propondo um modelo educacional que valorize tanto as
interações presenciais quanto as virtuais. Conforme refere o estudo The
onlife manifesto (2015), de Luciano Floridi, não há ambientes melhores ou
piores, sendo a pluralidade de opções fundamental para desenvolver
aprendizagens individualizadas e oferecer respostas diferenciadas aos alunos. O
que faz a diferença é a atuação pedagógica do professor.
Porém, apesar de todas as vantagens que apresentam os
ecossistemas de educação digital, verifica-se que ainda não estão
suficientemente implementados, pelo que devemos, também, refletir sobre as suas
limitações.
Quais as principais barreiras à implementação da
educação digital?
Sendo benéfica a transição para uma educação digital para todos os agentes envolvidos no processo educativo, também fica claro que existem muitas barreiras que fazem com que ainda não se tenha evoluído totalmente para um novo paradigma da educação, voltada para metodologias que integrem as tecnologias em prol de um ensino de qualidade, personalizado e inclusivo.
-Proteção de dados
Sendo benéfica a transição para uma educação digital para todos os agentes envolvidos no processo educativo, também fica claro que existem muitas barreiras que fazem com que ainda não se tenha evoluído totalmente para um novo paradigma da educação, voltada para metodologias que integrem as tecnologias em prol de um ensino de qualidade, personalizado e inclusivo.
A questão do acesso à rede, da segurança e da proteção de dados condicionam essa implementação, conforme referem Narciso et al. (2024) quando afirmam que "os desafios éticos e de privacidade no uso de tecnologias digitais são prementes na educação digital". São várias as preocupações relacionadas com a recolha e armazenamento dos dados pessoais dos estudantes ou dos dados sobre desempenho escolar, entre outros. Urge, então, criar ambientes seguros, que garantam a privacidade e a inclusão de cada utilizador, sem prejuízo da qualidade do ensino.
Entre as medidas que podem ser aplicadas para melhorar a proteção de dados, destaca-se a necessidade de existirem políticas rigorosas e regulamentações claras e estritas que delimitem a forma de recolher, armazenar e processar os dados obtidos nos ambientes educativos digitais, sendo também essencial a implementação de soluções técnicas de segurança, como, por exemplo, encriptação de dados, uso de autenticação forte, sistemas de gestão de identidades, com monitorização contínua de eventuais ameaças à segurança cibernética.
Mais importante será consciencializar e formar os “habitantes” dos ecossistemas de educação digital para que estes sejam capazes de se autoproteger, identificar ameaças e saber como atuar perante estas ameaças. Neste sentido, o Ministério da Educação tem vindo a desenvolver uma série de iniciativas e formações dedicadas à segurança digital, dirigidas a alunos, professores e pessoal não docente. Estas ações têm como objetivo principal aumentar a consciência sobre os perigos online e promover uma utilização segura e responsável da internet e das tecnologias digitais. As próprias escolas podem implementar várias medidas de promoção da segurança digital, como, estabelecer regras claras sobre o uso da internet e dos dispositivos digitais dentro do ambiente escolar, limitando o acesso a determinados sites ou implementar soluções de segurança como firewalls, antivírus, sistemas de gestão de identidade.
Verifica-se que várias escolas do nosso país já se encontram apetrechadas com salas de aulas do futuro, constituídas por diversos espaços onde os alunos, através de metodologias ativas, adquirem um conjunto de competências. Uma das principais razões para a implementação lenta e reduzida destas salas de aulas prende-se com motivos financeiros, pois a transformação dos espaços físicos existentes em ambientes inovadores e a aquisição dos devidos equipamentos tecnológicos configuram ser um investimento significativo, apenas possível, em grande parte, através de programas financiados.
Outra limitação à implementação da educação digital está relacionada com o facto de uma grande parte da população mundial não ter acesso às tecnologias, ficando logo excluída desta modalidade. É, portanto, necessário e urgente democratizar o acesso a essas tecnologias de forma a minimizar o máximo possível a exclusão digital.
Para que estas metodologias inovadoras façam sentido e alcancem os objetivos pretendidos, precisamos de professores aptos a trabalhar nestes ambientes, professores que entendam que pedagogias avançadas que integram as tecnologias podem influenciar de forma muito positiva as aprendizagens dos alunos. No entanto, por norma, verifica-se a chamada “resistência à mudança” tanto por parte dos professores como dos encarregados de educação. Assim, é necessário atuar em duas frentes, sendo essencial trabalhar na mudança de mentalidades e na demonstração dos benefícios da educação inovadora ao mesmo tempo que se providenciam ações de capacitação aos docentes, para que saibam usar convenientemente as tecnologias e integrá-las nas suas metodologias de ensino. Implica levar alunos e professores a sair da sua zona de conforto. O professor deve, assim, desenvolver diversas competências para alterar as suas metodologias para práticas colaborativas, conforme define, por exemplo O DigCompEdu é o Quadro Europeu de Competência Digital para Educadores (Mattar et al., 2020).
Conclusões
Assim, os ecossistemas de educação digital são ambientes de aprendizagem que integram a utilização das tecnologias para alcançar um maior nível de qualidade educativa, através de práticas educativas inovadoras e inclusivas. Esses ambientes complementam-se, sendo essa pluralidade essencial para garantir um ensino individualizado, pois não existem ambientes melhores ou piores. A pedagogia e as relações humanas ocupam um lugar central nesses ecossistemas, garantindo que a tecnologia é apenas um meio para alcançar objetivos educacionais mais amplos e significativos. Existem várias barreiras que são necessárias derrubar para a disseminação destes ecossistemas, desde mudança das mentalidades, custos e proteção de dados. Sabemos que uma alteração às metodologias é algo que leva muito tempo a ser alcançado, no entanto, é necessário continuar a insistir, pois os resultados que serão obtidos irão compensar todo o esforço. As nossas crianças e jovens merecem esse esforço e merecem ter acesso a uma educação de qualidade, adaptada ao mundo atual.
· Moreira, A. (31/03/2021). 16.º webinar Escola Virtual | Ecossistema(s) de Educação Digital e Ambientes Híbridos de Aprendizagem. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=V1VUGialbyE





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